quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

24º AO MESTRE, COM CARINHO.

Lembro até hoje que quando era pequeno, em férias escolares do mês de Julho, certa vez numa visita que fiz aos meus avós em São Paulo, fui levado pelas mãos de meu avô a um passeio.
Naquele dia, eu e ele percorremos um bairro da Zona Leste chamado Vila Carrão.
Em determinada rua estreita meu avô parou diante de algumas casas - todas juntinhas, espremidas, quase sem jardins - porém, casas centenárias - sobradinhos de muros baixos, com portas altas e janelas ainda de madeira.
Demorou-se um tempo olhando para uma dessas casas e apontando-a, me falou assim:
"__Aqui morou Dona Matilde, minha Professora..."
Seu olhar perdia-se num passado que eu não conheci, absorto em pensamentos e lembranças de seu tempo de criança, enquanto ele fitava aquela moradia... Então meu avô desfilou uma série de bons adjetivos, explicando-me como foram doces as aulas da sua Infância!
Oras, meu avô teve muito pouco estudo, não ultrapassando os primeiros anos da Escola Primária; e suas lembranças de um tempo remoto resistiram à adolescência e depois à vida adulta. E agora, já na velhice, tinha a oportunidade de demonstrar ao neto o quanto esse contato dele com sua querida Professora foi positivo e construtivo!
Naqueles dias de visita eu também já estudava em Minas Gerais e tive, graças a Deus, bons Professores! Estava ainda no Ensino Primário e imediatamente remeteu à memória os doces dias de aulas no "Grupo Escolar Dona Agostinha Flor de Maria".
As horas frescas, proporcionadas pela sombra projetada das árvores frondosas que protegiam a frente da Escola e transferiam uma calma sensação de paz na sala de aulas, jamais saíram do meu pensamento!
Menino calado que fui, menino arredio! Porém, estar na Escola fazia sentir-me em casa, pois naquele longínquo ano da minha vida tive uma Professora que iluminava meus dias...
Seus trajes, seu jeito de andar e seu modo de falar me lembravam alguém da família. Sua voz doce e sua linda caligrafia me fascinavam. Sua sabedoria me impunha respeito e uma muda veneração...
Estávamos no ano de 1978 e Dona Luzia Laudares era então a minha Professora.
Saber que ainda tinha a minha Professora após aquele período de férias - enquanto meu avô só possuía lembranças - me encheu de dó e tristezas pelo meu avô.
Naqueles tempos da Infância, a ideia de perder alguém próximo ou querido ainda estava longe de mim... Essa ideia começou a se materializar tempos depois, bem depois, com a perda de meu próprio avô.
E assim, de tempos em tempos recebo uma triste notícia - coisas da vida, natural, que todos nós estamos sujeitos, mas que ninguém quer esperar ou ouvir! E quando isso acontece, alguém por quem temos carinho acaba se transformando em lembranças, passando para um campo invisível e intangível, de onde nenhuma ação ou manifestação vem, além da dolorosa saudade.
E é por isso que escrevo essas palavras hoje...
Minha Professora Luzia Laudares prezava muito nossas redações. Todas imperfeitas, com erros de caligrafia, de gramática e de construção de frases. Mas eram lidas por ela com muita atenção; e sempre havia uma palavra de incentivo - não importasse a gravidade dos erros no texto - e a importância que ela demonstrava com todas aquelas mal traçadas linhas me enchia de orgulho!
E suas aulas - sempre ministradas com muito amor - não nos permitia ver o tempo passar naquelas poucas e prazerosas horas na sala de aulas, que se repetiam dia após dia sem nunca cansar.
Hoje, porém, nesta Quinta Feira - 18 de Fevereiro de 2021 - recebo a triste notícia que ela se foi...
Levada pela Covid que tem ceifado tantas e tantas vidas, que tem trazido tristeza aos lares e colocado tantas famílias em luto! E hoje colocou também o meu coração...
Porém, se os dias agora me ficaram um pouco mais cinzas, a noite para mim será sempre mais clara, pois a partir de hoje minha querida Professora do 3º Ano Primário foi morar no céu, junto às estrelas...
Como um tesouro, vou guardar na lembrança nossa interação na Sala de Aulas, seu cumprimento na chegada, sua despedida na saída, sua correção das provas e redações, seus ditados, suas histórias...
Gostaria muito de tê-la visitado, mas quando estive em Guapé há alguns anos, soube que já não morava mais ali, e que agora estava junto aos seus parentes em Belo Horizonte, talvez.
E pela idade e pelo tempo, já tive medo de não poder vê-la mais...
Mesmo assim, através da Soninha (a editora do Jornal Bão de Prosa) eu tive notícias dela.
E graças a Deus e à Soninha também, eu tive a impagável oportunidade de fazer Dona Luzia saber que nunca a esqueci, mesmo se passando tantos anos!
O futuro não é tão previsível como gostaríamos que fosse e não sabemos o dia de amanhã...
Mas caso eu também chegue na minha velhice, e nesse dia eu tenha oportunidade de voltar ao Guapé, quero levar meu futuro neto pelas mãos e com ele passear na Cidade...
Ao passar por certa rua da Cidade Nova, quero estar por um momento em silêncio diante de uma determinada casa...
Talvez já não seja mais como fora antigamente, com as características das casinhas de Furnas, em blocos de concreto... mas de qualquer forma, é um lar que permanece ali, no lugar.
E com meu olhar perdido num passado que meu neto não vai conhecer, absorto nos meus pensamentos e lembranças de criança, quero apontar-lhe esta casa e dizer:
"__Aqui morou Dona Luzia, minha Professora...".

Adeus, Dona Luzia Laudares! Adeus, Professora querida!
Esta é a última Redação que eu faço para a senhora... Sei que se pudesse ler, corrigiria a pontuação e meus erros de construção das frases, naquele seu jeito firme, porém brando e doce, que conquistou tantos dos seus eternos alunos...
Obrigado por fazer parte da minha Infância! Que Deus lhe pague por tudo.
E até um dia, talvez...

Marcelo Lagoa de Almeida




domingo, 27 de setembro de 2020

23º Foi de tristeza, sim!

CLAUDINHO DO ZÉ DAMAS

Ele era especial…

Um anjo de apenas 8 ou 9 anos encarnado num corpo adulto, de uns trinta e poucos anos.

Morávamos na mesma Rua. Fomos quase vizinhos.

O Claudinho eu conheci desde a minha infância e naquela época ele já era um "adulto-criança".

E sempre foi do mesmo jeito:

Sempre sorridente, com seu vozeirão de gente grande ele brincava igual as crianças, por causa de seu raciocínio que não se desenvolveu com a mesma rapidez do corpo.

Mas era um doce menino. Obediente aos pais, todos os dias ele descia a rua de casa e seguia em direção ao centro da pequena cidade mineira, onde eu morei, para buscar o leite.

Naquele tempo não existia “leite pasteurizado”, ninguém sabia o que era “leite de caixinha” ou “leite de saquinho”. Tudo era vendido IN NATURA: A farinha, o açúcar, o café, o arroz e o feijão. Tudo era pesado à frente do cliente, depois embrulhado em “papel de pão”.

O leite também era assim e o Claudinho levava sua vasilha de alumínio para trazê-lo. Voltava cantando músicas infantis e balançando perigosamente sua vasilha cheia de leite, com risco de derrubar tudo no chão!

Sonhava em ser Locutor de Rádio. Diante da impossibilidade, Claudinho passava horas e horas debaixo da sombra das árvores no seu quintal, ligando as árvores com um emaranhado de barbantes e latas e brincando sozinho de “telefone sem fio”.

Eu me mudei de Guapé há muitos anos (há 29 anos) e as notícias às vezes demoram um pouco pra chegar…

Porém, há pouco tempo eu soube que o Cláudio faleceu. Mas não faleceu agora! Já faz algum tempo que ele se foi.

Fiquei triste e despertou-me a curiosidade:

“O Cláudio, apesar das suas limitações, parecia um rapaz saudável… Do que teria falecido o Cláudio, rapaz tão novo?”

E hoje, a notícia triste se completou:

CLAUDINHO MORRERA DE TRISTEZA.

Muito apegado ao pai, Sr. José Damas – um caridoso e respeitado senhor – Claudinho começou a ficar triste desde que o pai falecera…

Tempos depois perdeu também Dna.Tiana, sua mãe.

Cláudio era o filho mais novo; e não sei dizer se era filho legítimo ou adotivo.

Só sei que, com a morte dos pais, Cláudio foi levado para a casa de uma de suas irmãs, que ficava na zona rural de Guapé. Mas infelizmente, não se adaptou ao novo ambiente.

Trouxeram-no outra vez à cidade, mas como na casa onde morou não havia ninguém que cuidasse do rapaz, foi então levado ao abrigo da Vila Vicentina (outrora chamada de “Conferência” pelos habitantes da cidade). E que ficava bem próximo à casa onde ele passou sua vida toda, com os pais.

Segundo o depoimento da sobrinha, Cláudio saía todos os dias da Vila Vicentina e perambulava nas ruas da cidade. E gostava de ficar rodeando a casa que outrora foi o seu lar… 

A casa permaneceu fechada, ausente de pessoas. E o Cláudio permaneceu também fechado, repleto de lembranças… 

E foi ficando quieto, foi ficando calado, foi ficando encorujado, foi ficando perrengue, foi parando de brincar, foi parando de sorrir, não respondia a nenhum tratamento e um dia morreu.

Talvez digam que foi disto ou daquilo (complicações com o diabetes), pois a morte precisa de uma desculpa para acontecer.

Mas a perda dos amados pais lhe pesou muito no coração… Ver a casa que fora seu lar sempre fechada, negando-lhe a vida alegre que outrora vivera ao lado dos pais, também contribuiu bastante para piorar seu estado de saúde!

E eu, que achava que morrer de tristeza só acontecia nos livros, nos contos e nas novelas…

Mas morrer de tristeza é algo que de fato acontece, é a triste realidade…

E o Cláudio, seguramente, morreu foi de tristeza sim!


Então fica aqui registrado minha triste homenagem ao bom menino:


Já vi gente morrendo de morte morrida,

Morrer para sempre é dor toda vida,

Morrer de acidente, acontece e é triste,

Morrer de doença, é triste e sofrida,

Morrer numa briga, uma triste partida,

Morrer na velhice é triste certeza,

Mas é triste duas vezes, morrer de tristeza!


Que Deus o tenha em paz, em um bom lugar.



domingo, 26 de julho de 2020

22º O Farmacêutico Sahium

Filho de imigrantes libaneses, Abraão Antônio Sahium fixou residência em Guapé (MG) há muitos e muitos anos passados...
Ali abriu uma farmácia que existe até hoje e é a mais antiga da cidade.
Ajudou muita gente pobre no Guapé, pessoas que não podiam sequer comprar um comprimido. Visitava os enfermos em casa, dava assistência a quem já não podia mais sair da cama... Visitava-os mesmo que fosse a pé!
Numa cidade pequena sem muitos comércios especializados, a farmácia do Sahium também funcionava como uma boutique: Não só vendia remédios, mas também tinha os perfumes...
A imagem mais marcante na memória é de 1985 ou 1986... foram as suas visitas à casa de Dna. Oscarina e Sr. Candinho, nossos vizinhos ali da Rua Araúna, uma mulher gravemente enferma.
Da porta entreaberta que dá pra rua, pressentíamos aqueles momentos de angústia, quando ela, vítima de um câncer no pulmão, lutava para sorver um pouco de ar. Mas o "Sr. Sahium" estava lá, para aplicar talvez uma morfina, para prestar todo o conforto possível naquelas horas difíceis e finais.
Não tinha dia, não tinha hora. Era só chamar e o prestativo farmacêutico vinha atender os pacientes à domicílio.
Toda população guapeense o admirava... Sahium foi nosso médico e farmacêutico.
18 de Junho de 2020: Nesse dia ele se foi, mas deixou um legado gigante, uma imagem zelosa do bom e gentil profissional (e amigo) que sempre foi.

Segue abaixo uma pequena homenagem ao grande profissional. Uma pequena homenagem (e também uma sugestão) ao Farmacêutico que nos acompanhou desde criancinha, atendendo-nos desde uma pequena dor de dente, a um problema de saúde mais sério...
Alguém que atendia a todos com um lindo sorriso no rosto e que transmitia paz e confiança (mesmo quando apontava para nós, crianças, a temida agulha de injeção).
Vai com Deus, Sahium!

Avenida Brasil…
Quantas são as Avenidas
Que te homenageiam pelo nome?
Um nome que se destaca
Por importância entre tantos mil… 
Pois quase não há cidade,
Que não estampe em logradouros,
Esse nome de Brasil… 

Um País tão gigante,
Mas de povo tão sofrido.
Onde a fome é abundante,
E o futuro dolorido.
Onde os presos estão soltos
E o crime ainda compensa.
Onde os piores são poderosos
E o bom cai na maledicência.

Onde se trabalha pra pagar impostos
E viver só do que sobra.
Destino incerto e duvidoso,
Viramos pau pra toda obra.
Onde a Favela é quase tão grande,
Quanto a Cidade que a comporta.
Infraestrutura nem existe
E a miséria bate na porta.

E suas terras são divididas,
Subdivididas e depois vendidas.
Seu patrimônio é malcuidado
Isto quando não são incendiados!
Um País que dá mais importância
Ao salário do Deputado
Mas que se desapercebe
Dos que o fizeram estudado.
Se eu esquecer,
Alguém me ajude:
Mas tem bem mais privilégio
O político de Brasília,
Do que o Profissional da Saúde!

Uma Pátria que eu gostaria de chamar de minha Mãe,
Enquanto outros se contentam por chamar até de Madrasta.
Porém nem uma e nem outra valem,
Pois tu não fazes sequer o mínimo
Do que qualquer uma delas faça!

Um Brasil irreconhecível,
Que nem ouve os que te clamam.
Nem merece uma Avenida!
Pois castiga os que te amam.
Quando muito, dar teu nome
A um Beco Sem Saída.

Em Guapé também existe
Por Brasil uma Avenida.
Nela existe uma farmácia
Que é de longe a mais querida.

Entre aqueles mais antigos
Que à população serviu,
Houve um filho libanês
Nessa Avenida Brasil.
Seu sorriso aliviava
A dor do enfermo condenado.
Daqueles que nem tratamento
Salvaria o coitado.

Vindo a pé ou a cavalo,
Visitava todo mundo!
Um doente na família
Nunca foi abandonado.
Na Cidade ou no campo,
Rico, pobre ou vagabundo.

A Avenida é testemunha
Da Farmácia que cresceu.
A Cidade até mudou,
Mas ali permaneceu.
Como nada é para sempre,
Hoje um fato dolorido:
O seu dono tão querido
Infelizmente faleceu.
E Sahium era seu nome,
O nosso amigo farmacêutico.
Fez a vez até de Doutor,
Em época de tempos críticos.

Num Brasil pouco amistoso,
De pobreza e de injustiça,
Desnutrição, febre ou maleita,
A aflição era contida
Às vezes com suas receitas.
Pois seria bem mais pago,
Tirar de ti este “Brasil”
E dar-te nome ó Avenida,
Sem causar prejuízo algum,
Ostentando agora em suas placas:
“Avenida Abraão Antônio Sahium” (*)

Obs: Suas iniciais formam AAS, o princípio ativo da nossa querida e popular Aspirina...


21º - Padre João

"Estou pensando em Deus
Estou pensando no amor
Estou pensando em Deus
Estou pensando no amor
Os homens fogem do amor
E depois que se esvaziam
No vazio se angustiam
E duvidam de Você
Você chega perto deles
Mesmo assim ninguém tem fé."

Padre João.
Sou suspeito pra falar desse senhor, pois era alguém que jamais tive algum contato pessoal, visto que, pertencendo a outra religião, não frequentei a Igreja Matriz.
Um sujeito que sempre vi ao longe, fosse nas procissões que percorriam as ruas, ou nos seus esporádicos passeios pelas ruas da cidade – quando alguém, conduzindo o veículo, levava-o para alguma missão ou visita aos fiéis.
Nunca entabulei uma conversa com ele, nem jamais pedi sua bênção.
Nunca lhe dirigi qualquer palavra, ou parei para ouvir seu sermão. Afinal, nunca me vi na oportunidade de me aproximar dele.
Mas conheci-o bem cedo… 
Porque vivendo em Guapé, vivia-se, de qualquer forma, com a presença de Padre João em nossas casas!
Houve um tempo que podia-se dizer que metade da cidade fora batizada pelo Padre João. E a outra metade, por já serem mais velhos quando foi ordenado, levaram seus filhos a ele.
Nunca atravessou o umbral de minha casa, mas acordava-nos todos os dias de manhã, com as músicas religiosas que tocavam em seus discos de vinil!
Às vezes eu nem conhecia certo cidadão, ou talvez nem soubesse que andava doente… Mas ele nos avisava toda vez que alguém morria!
Não sabia quem era o noivo, nem mesmo o nome de seus pais. Mas sempre acabava informado de tudo: Quem eram os pais, os sogros, padrinhos e até o dia do casamento, porque ele nos avisava também através dos alto-falantes da Igreja Matriz.
Nunca fui à missa, mas ficava sabendo do seu horário e até mesmo de algumas broncas que levavam certas pessoas, quando se atrasavam para a cerimônia; porque sua voz ecoava aos quatro ventos, nos avisando...
Era um dia diferente: um dia apreensivo e até mesmo esperado com ansiedade, a sua visita nas Escolas, no Grupo Primário… Foi uma pena, mas se ela aconteceu – e eu creio que sim – eu não o vi neste dia também.
Notícias diversas eram publicadas naquele “jornal falado” que se fazia ouvir aos quatro ventos nos alto-falantes da torre de quatro lados:
Desde um aviso qualquer, sem importância nenhuma (mas que certo cidadão insistia que se anunciasse nos alto-falantes), até mesmo alguma notícia de maior importância, como algum acidente nas estradas, ou algum evento importante à cidade, para os próximos dias.
Algumas vezes o padre exercitava sua oratória e fazia as pregações a partir do microfone, para toda a cidade ouvir.
Conselhos matrimoniais, conselhos aos jovens, admoestações aos desencaminhados, reprimenda nos casais de namorados que andavam pela Praça durante a noite, a chamada para a missa, o serviço contratado, o negócio combinado, etc… Tudo era falado, tudo era anunciado.
A missa de corpo presente era anunciada sob a execução tristíssima de alguma música religiosa. E os sinos repicavam na derradeira vez que o cidadão atravessava as portas da Matriz, quando era então conduzido pelos parentes e amigos até sua derradeira morada, no final da Rua que descia da Praça até o portão do Cemitério.
Lembrança triste de um dia, em 1983, quando uma menina, ainda bem jovem foi levada ao cemitério. Sofrera de câncer e veio a óbito. Ela morava ali mesmo, na Rua que descia para o Cemitério. E conheci-a de vista.
No momento que seu corpo fazia a curva pra descer a rua, já no finalzinho da tarde de um dia nublado, a Igreja tocava uma triste música… Eu, que passava por lá naquele momento de bicicleta, esperei com respeito o cortejo passar. Tão nova! Mas foi seu destino… 
O Zé da Hora era sempre convocado, como se pudesse, de qualquer forma, mesmo sendo o “homem do sino”, alguém capaz de perder a Hora… 
Como toda pessoa proeminente na sociedade, Padre João também teve seus admiradores e críticos.
E tinha também aqueles que – sem temor – imitavam sua voz arrastada e de tom afetado, com sotaque alemão… Esses também recebiam uma repreensão pública, a partir dos alto-falantes da Igreja Matriz!
E inevitavelmente, com meio século de sacerdócio, foram muitas as “histórias do Padre João”.
Verídicas ou fictícias, essas sempre populavam a imaginação e a consciência das pessoas.
Eu, pelo distanciamento com a sociedade religiosa e católica da cidade, com toda certeza não conheci dez por cento delas!
Porém, muita gente – principalmente o povo mais velho de Guapé, e também aqueles que já eram adolescentes em 1984, 1985 – com certeza guardam memórias muito melhores e bem maiores do que essas que eu possuo.
Mas entendo que o sacerdote foi, inegavelmente, “a cara da cidade”.
Guapé se amalgamava em torno de Padre João.
Brigas de família, brigas de vizinhos, brigas entre credores e devedores, rixas e todo tipo de diferenças, podiam ser resolvidas com os conselhos do Padre, no confessionário.
Foi rígido, contumaz, mas também foi admirado pelos que receberam seu auxílio nas horas de necessidade.
Houve um tempo, na década de 80, que ordens superiores levaram-no da cidade, pois sua saúde inspirava cuidados e ele já não podia administrar bem o sacerdócio.
Mas não teve jeito: Mesmo fragilizado pela idade e pela doença, Padre João foi outra vez trazido à cidade. A vida do padre estava ali, ligada ao povo que durante tantos anos ele doutrinou.
Foi ali em Guapé que ele viveu a maior parte de toda sua vida. E era ali naquela cidade que deveria abandoná-la, quando chegasse a hora.
Então, certo dia, o padre não falou mais nos alto-falantes… 
E foi pela voz de outros que se fez anunciar sua partida.
Uma triste e sentida partida para muitos, que fez a cidade parar momentaneamente.
Padre João ganhou um busto, uma praça e um jazigo ao lado da Igreja que tanto amou.
Não o conheci pessoalmente, é verdade.
Mas alguma coisa ficou marcada, com certeza. Porque hoje, ao longe, escutei uma bela canção do Padre Zezinho… E lembranças me vieram à memória.
E, automaticamente lembrei-me da infância, das ruas poeirentas de Guapé, dos campinhos de futebol, das quadras vazias, do enorme campo de aviação, da velha rodoviária, da Praça do Cruzeiro, da Praça da Matriz, do Bosque, da Figueira, do Buracão e da Rua Três de Fevereiro; do velho ônibus da Viação Martins, da homenagem ao Homem do Campo cantada na voz de Dom & Ravel, do enfeitado Corpus Christi com palha de arroz colorida, das músicas religiosas tocadas a partir da torre da Igreja (inclusive essa, do Padre Zezinho), do velho coreto, da velha fonte, das árvores que enfeitavam a Avenida Brasil…
E, lógico, da inconfundível voz do Padre João… 

"Tudo seria bem melhor
Se o Natal não fosse um dia
E se as mães fossem Maria
E se os pais fossem José
E se a gente parecesse
Com Jesus de Nazaré
Estou pensando em Deus
Estou pensando no amor
Estou pensando em Deus
Estou pensando no amor…"

domingo, 16 de setembro de 2018

20º - Monareta

Que saudades de você!
Década de 1980, eu ganhava muitos gibis (revistas em quadrinhos) cada vez que eu visitava meus avós, em São Paulo…
Naquela época saiu uma moda, uma campanha impressa nas folhas dos gibis, onde vinha escrito assim: “Não esqueça a minha Caloi”
Foi o pesadelo de muitos pais, principalmente das famílias de baixa renda, numa época que bicicleta era um objeto caro e difícil de se comprar.
Também recortei meu bilhetinho; e na inocência de criança, entreguei-o ao meu pai, naquele longínquo ano de 1980. Estávamos na cozinha da casa de meus avós. A gente se preparava para a viagem que nos traria de volta a Guapé, depois de ter passado as férias escolares na casa de vovó.
Eu mal sabia que a viagem era o fruto de muitos meses de economia, de um pai que lutava todos os dias sob o Sol e sob a Chuva, para trazer o pão à mesa de casa, na humilde profissão de caminhoneiro.
Meu pai pegou o bilhete, no seu rosto havia um leve sinal de sorriso.
Não falou nada. Apenas pegou e guardou.
Também na minha inocência de criança, não percebi a tristeza oculta por trás daquele morno sorriso… Meu pai tinha (na época) pelo menos cinco bocas pequenas para tratar…
Então viemos embora, voltar a vida na rotina em Guapé, a cidade escolhida para morar.

A chegada dela não foi no Natal. Não foi no meu aniversário. E também não era Caloi.
O seu dia da chegada é confuso nas lembranças: Lembro de uma viagem de caminhão que fizemos; meu pai, minha mãe, eu e meus irmãos pequenos. Também lembro de ter pernoitado na casa de algum conhecido da família, em alguma cidade próxima de Guapé.
Não sei se ela veio para casa oculta na carga do caminhão, em cima da carroceria…
Ou se ela já me esperava em casa!
Mas associo a surpresa do presente, a essa imagem da viagem.
Não era nova. Papai conseguiu comprá-la de segunda ou terceira mão. Porém, ela foi toda reformada, a mando de meu pai.
Mas para atender ao pedido do meu bilhetinho, eu não sabia quantas marmitas foram economizadas, o quanto aquele sonho infantil custou ao meu pai, que num velho caminhão Chevrolet 70, ausente o dia todo de casa, fazia carretos de adubo ou café, pelos sítios de Guapé!
Lembro da felicidade pura de menino, ao ver seu presente!
E imediatamente esqueci da Caloi!
Eu possuía agora uma reluzente Monareta: Aquela bicicleta infantil da Monark que fez tanto sucesso nos anos 70 e 80…
Era vermelha. Meu pai mandou que trocassem os cabos de freio. Também colocou um novo selim. Para-lamas!
Havia uma buzina no guidom, daquelas de borracha (fom-fom). Uma nova catraca, coroa e corrente também novas! Um par de luvas no guidom.
E o cheiro dos pneus? Que delícia! Pneus novos de bicicleta.
Lembro de minha preocupação boba: Medo de que os “pelinhos” dos pneus novos logo se desgastassem, ao atrito com o chão…
Faltou alguma coisa: Eu queria a bomba de encher pneus. Também queria aquela proteção em volta da corrente, “pra barra das calças não enroscar na corrente”… Também queria adesivos: muitos adesivos para enfeitar meu precioso presente!
E Papai deixou que eu comprasse na bicicletaria do Expedito Monteiro todos os acessórios que desejei, para incrementar minha bicicleta. A conta que eu fiz, meu pai também pagou.

Em frente o Hospital da Cidade (naquele tempo funcionava o Colégio São Francisco) havia um terreno vago, um campo vazio onde a molecada do bairro jogava futebol (hoje ocupado por uma escola).
Ali, apoiado por minha irmã menor que segurava na garupa da bicicleta, eu dei minhas primeiras pedaladas! Foi ali que aprendi andar de bicicleta. A sensação era muito diferente dos “velocípedes” que eu já experimentei!

Nunca fui muito “sociável”… Nos tempos que morei na Rua Dr. Joaquim Coelho Filho - nº 409, havia mutirões que vinham de São Paulo, de São Carlos, etc. para construir a Igreja dos crentes.
Nessa época de construção, em casa era o dia todo aquele movimento, que embora transmitisse um clima de festa, de contentamento… provocava um movimento que não era a minha praia, que sempre preferi a tranquilidade, a calmaria, e também um vai-e-vem reduzido de pessoas à minha volta.
Então, ao chegar da Escola, pra me ver ausente de todo esse burburinho, eu saía de casa na bicicleta, pedalando pelas ruas da cidade. Eu ganhava talvez uns 10 cm. de altura, quando estava montado nela!
Aprendi a pedalar sem segurar o guidom! Então abria meus braços no Campo da Aviação. E eu era o piloto de um avião vermelho, que longe do solo voava tranquilo, com um potente motor tocado a pedal!
Uma liberdade indescritível. Uma felicidade descompromissada e espontânea, de criança que só quer ser feliz. Era uma felicidade diferente dessa felicidade adulta, construída, onde você sabe que “DEVE ser feliz, porque tudo está indo bem na vida, porque tem saúde e tem o que comer na mesa”
Uma simples e pura felicidade de criança, que embora não tivesse uma Caloi, vivia muito feliz com sua Monareta!

Tempos depois ela perdeu a importância… Os compromissos da vida, as responsabilidades no trabalho e as paixões, disputaram seu lugar dentro do meu coração; e ela perdeu seu reinado.
E certo dia desapareceu de nosso quintal, quando já morávamos na Rua Três de Fevereiro, onde antigamente funcionava a Padaria do Zé Osvaldo.
Passou alguns meses, eu até descobri quem foi que a levou embora… E seu esqueleto apareceu, todo enferrujado, nos fundos da “Rua do Buracão”, numa época que as águas da Represa recuaram por causa da seca. Deixei-a por lá, descansando em seu túmulo, no lugar escolhido por quem a levou.
Mas isto não vem ao caso. Está no passado e já foi perdoado.
O que eu não perdoo mesmo, foi minha falta de sensibilidade, de não tê-la conservado com carinho… Minha bicicleta que tanta felicidade e prazer me deu, quando eu ainda era criança.

Hoje, embora possuo um carro não muito velho, todavia não dispenso o uso da bicicleta!
Tenho uma Caloi City (também não muito nova) e com ela eu vou e volto TODOS OS DIAS ao trabalho. São aproximadamente 10kms. diários, aproximadamente 250kms. por mês. Faço o cálculo somando as quatro vezes que ando com ela diariamente: Vou para o trabalho, volto para almoçar. Depois retorno ao trabalho e volto à tarde pra casa. Faça frio ou calor, de Segunda a Sábado.
Só não vou de bicicleta se está chovendo muito. Todavia, a bicicleta já faz parte da minha vida. Por tantos quilômetros que já andei de bicicleta, acho que poderia abraçar o mundo, com meus pés em teus pedais!

Como dói essas lembranças...
E se hoje eu pudesse andar em você outra vez,
Com a felicidade pura de criança,
Quem sabe por um flash de tempo eu me sentiria
Com aquela liberdade de outrora,
A voar de braços abertos pelo Campo de Aviação,
Quando minha vida ainda estava na aurora…
Sentir o perfume de teus pneus novos,
Segurar teu guidom
E apertar sua buzina: Fon-fon!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

19º - O Marceneiro que tocava Bombardino




__“Seu Tóin”, que é isso?
__ É a Morsa de Marceneiro.
__“Seu Tóin”, que é isso?
__ Esse é o Grampo de Marceneiro.
__“Seu Tóin”, que é isso?
__É a Plaina que eu mesmo fiz.
__“Seu Tóin”, que é isso?
__Esse é o Enxó. Cuidado, menino, que machuca!
__“Seu Tóin”, que é isso?
__Ah! Este é o Graminho. Ferramenta antiga, inventada no tempo de Jesus.
__“Seu Tóin”, que é isso?
__Um esquadro! Sem essa ferramenta os cantos ficam tortos!
__“Seu Tóin”, que é isso?
__ Ah, menino! Isto é um Formão!
__“Seu Tóin”, que é isso?
__Este é um Arco de Púa. Com certeza teus avós já tiveram um desses…
__“Seu Tóin”, que é isso?
__NossSinhora, Miníno! Ocê pergunta demais! Num qué lá vê se teu Pai tá precisano do’cê não? Vai me atrapaiá o serviço. Preciso entregar essa cadeira hoje! Virge Maria, que muleque custoso…

E assim era nossa conversa!

Mudei-me para a “Rua do Grupo de Lata” já na adolescência. Sem casa própria, sempre morando de aluguel, fomos parar naquela Rua no ano de 1984, quando alugamos a casa do Vito Miquita, o pai da Professora Averiana Castro.
E de frente à nossa casa morava o Sr. Antônio Sulica, um afinadíssimo baixista da Lira Maestro João Novato e também um excelente marceneiro…
Marceneiro daqueles tradicionais, dos antigos, do tempo em que se dizia: “Faça-você-mesmo”…
Pois é verdade! Suas ferramentas manuais eram tudo o que ele possuía.
Nada de equipamento elétrico! Energia da Cemig só entrava naquela casa para acender as lâmpadas. E assim mesmo era uma ou duas, apenas.

O encaixe da gaveta tinha de ficar perfeito. Na mesa, cantos arredondados; e tudo no esquadro.
E as rebarbas de madeira? Como Sr. Antônio as tirava do encosto da cadeira? Nada de lixadeiras! Era a Grosa velha e a Plaina cega que comiam!
As ferramentas de ferro e aço – de tão velhas e usadas que eram, pareciam lâminas envernizadas! Envernizadas por uma crosta negra, provocada por camadas e mais camadas de poeira e suor, impregnadas ali por décadas de uso, e que cobria toda a ferramenta como um verniz escuro.
Embora fossem rústicas, essas ferramentas quase caseiras foram criadas com as melhores madeiras. Seus cabos eram feitos de mogno e outras madeiras de lei.

A Morsa de Marceneiro, apesar de tão velha quanto “Seu Tóin”, prendia com eficiência as peças em seu único mordente, pressionando fortemente a madeira trabalhada contra a lateral da bancada.
Rangendo e resmungando, a velha Morsa obedecia a vontade de Tóin Sulica, quando ele, girando-lhe o fuso, apertava algum encaixe de madeira entalhado. E assim permanecia imóvel, até que lhe secasse a cola.

A Bancada de trabalho, toda em madeira maciça, velhíssima e com todas as ferramentas rústicas do Marceneiro espalhadas por cima dela, formavam um quadro impressionante de decrepitude.
Porém, um quadro de eficiência também! Porque dali saíram muitos criados-mudos, cadeiras, estantes, gavetas, baús e uma variedade enorme de pequenas peças, todas cuidadosamente trabalhadas, envernizadas e bem polidas.
Seu Antônio Sulica era um verdadeiro “Mestre Gepeto” (igual aquele do boneco Pinnóchio)… Porque nas suas mãos a madeira criava vida, criava forma e adquiria cor. E um cavaco rústico de madeira criava personalidade, nos pequenos móveis e objetos que ele fazia.
Este era o ganha-pão de Antônio Sulica – o Marceneiro que morava em frente a minha casa.

A casa de “Seu Tóin Sulica” era velha conhecida minha! Para mim, era uma casa misteriosa.
Desde criança, lembro-me de passar por aquela casa quando eu voltava do Grupo Primário.
Quando eu, a Vânia e a Vanusa Alcântara fomos visitar a mãezinha doente e acamada do Tóin Sulica, aquela casa já estava em estado deplorável, com as paredes trincadas e uma enorme brecha na parede da cozinha, que Seu Antônio tapou improvisando com pedaços de lona e tábuas…
Calma! Já sei o que vocês estão pensando! Minha idade, não é? Mas não sou tão velho assim! E não fui eu quem ajudou pregar as tábuas na Arca de Noé, podem ter certeza! É que a mãe de Tóin Sulica faleceu recentemente, fazem apenas 40 anos…
Mas a primeira visita que fizemos nesta casa foi no ano de 1976. E as meninas – Vânia e Vanusa, são filhas da Marilda e netas do Joaquim Monteiro; portanto, eram sobrinhas da velhinha enferma e primas do Seu Antônio.

Após a morte da mãe, Tóin Sulica ocupou cada canto e cada espaço da casa com cavacos de madeira, pernas de cadeiras e mesas torneadas, gavetas, caixotes, e um mundo de pequenos objetos em madeira que ele fazia. Mas nunca consertou a parede quebrada da cozinha…

Com muita dificuldade para andar, Seu Antônio encolhia os dedos dos pés ao caminhar e por causa disso quase não lhe cabiam os chinelos. É que ele sofria de “cravos” e “olho-de-peixe” nas solas dos pés, que lhe atormentavam dia e noite, fazendo com que o velho andasse sempre mancando.
Mesmo assim, ele nunca desanimava. Nos dias em que era convocado pela Lira Maestro João Novato, botava seu bombardino a tira-colo e mancando “subia o morro”, em direção ao grupo musical.
Nesses dias, lá da minha casa eu escutava o “Fon-fon-ri-fon” de seu instrumento… Era o Antônio Sulica que deixando de lado o martelo e o serrote, transformava sua sala de labor num Estúdio, aplicando-se em treinar a arte musical.
E então aquelas mãos rudes, de dedos marcados e unhas machucadas pela marreta, se transformavam num poderoso vetor da Escala Cromática, passeando pelas sete notas musicais nos cilindros de seu bombardino.

“Seu Tóin Sulica”… eu me divertia observando-o trabalhar em suas pequenas peças de madeira!
Certo dia, inspirado na marcenaria de Seu Antônio, eu mesmo fiz um porta-chaves, com pedaço de madeira e palitos de fósforos… Com suas ferramentas, é claro! Seu Tóin Sulica quem me ajudou a fazer.
Pena não ter comigo uma fotografia dessa primeira “obra de arte” que eu mesmo fiz! Sei que este objeto andou guardando as chaves da casa de minha mãe durante um bom tempo. Hoje não sei mais se existe…
Mas não parei por aí! E até hoje a minha diversão é mexer com madeira (é o meu “hobby”, como dizem os mais novos). E ainda faço pequenos trabalhos, faço miniaturas artesanais…
Ferramentas elétricas? Quase nenhuma! Seu Tóin Sulica me ensinou que ferramentas a gente faz em casa mesmo… Estilo: “Faça-você-mesmo”!

E assim, cada vez que eu entro naquela pequena oficina onde guardo minhas ferramentas manuais, lembro-me desse bom velhinho, que me deixou boas recordações e exemplos.
E a este Marceneiro que soube tão bem conjugar as duas profissões: da Música e da Madeira, deixo aqui minha homenagem:

Com lídima expressão e voz sentida
Hei de cumprir no Mundo a minha sorte
Alfredo Marceneiro toda a vida
Para cantar o fado até à morte.

Orgulho-me de ser em toda a parte
Português e fadista verdadeiro,
Eu que me chamo Alfredo, mas Duarte
Sou para toda a gente o Marceneiro.

Este apelido em mim, que pouco valho,
Da minha honestidade é forte indício.
Sou Marceneiro, sim, porque trabalho,
Marceneiro no fado e no ofício.

Ao fado consagrei a vida inteira
E há muito, por direito de conquista.
Sou fadista, mas à minha maneira,
À maneira melhor de ser fadista.

E se alguém duvidar crave uma espada
Sem dó numa guitarra para crer,
A alma da guitarra mutilada
Dentro da minha alma há de gemer

Música de Alfredo Marceneiro – fadista português.



domingo, 19 de fevereiro de 2017

18º Bosque Solidão


“Nesta rua, nesta rua, tem um Bosque
Que se chama, que se chama Solidão...”

A cantiga de roda com origem no Folclore, já tem o nome de seus compositores perdidos no tempo.
Mas a cantiga fala de um Bosque quase vazio (pois dentro dele mora apenas um Anjo) e por isso tem o nome de Solidão.
Com um quê de melancolia, imaginávamos quando crianças ao ouvir a canção, um lugar sombrio, solitário e escuro; uma mistura da natureza dos pântanos com o silêncio dos cemitérios.
Assim como se perdeu no tempo o nome do compositor, perdeu-se também a localização geográfica do Bosque.
Ou não!
Pois quem vai da "Cidade Velha" para a "Cidade Nova", lá em Guapé, seguindo o caminho pelas ruas abaixo da Avenida Brasil, passará no trajeto pela Rua Prof. Ataliba Lago. E seguindo, sobe-se em direção à Cidade Nova caminhando ao lado da cerca de arames que resguarda a solidão de um Bosque!
Desde quando mudei para o Guapé, sei da existência do Bosque. Mas nunca soube a sua origem: de quem foi o projeto, quem o formou, cercou, pavimentou e separou-o da cidade com um portão sempre trancado!
Refúgio dos passarinhos e de muitos animais silvestres, o Bosque formado em sua maior parte por pequenos pinheiros parece esconder também dentro de si muitos segredos... Ou, pelo menos, é isto que a imaginação nos faz crer!
A meio caminho entre os dois bairros, esse espaço, que é vazio de pessoas mas repleto de silêncios, algumas vezes foi percorrido pelas pernas infantis de crianças curiosas, que invadiam-no, à procura de ninhos de passarinhos e pés de gabiroba. Desrespeitando o Portão, invadíamos o Bosque. Havia um caminho semioculto por folhas mortas que levavam na direção de uma praça, ou algo parecido com isso. As lembranças são difusas porque a gente não se detinha muito tempo por lá. Quando crianças, temíamos o silêncio e eu tinha medo dos espíritos do Bosque, que talvez poderiam, na solidão, morar ali...
Se o Bosque era cercado de um lado (aquele virado para a Rua), ele morria à beira da Represa no outro extremo, e ainda acabava abruptamente na outra banda, no precipício do “Buracão”.
Buracão: era outro lugar tão singular e tão pouco conhecido dos adultos...
Ah!... Dos adultos sim, porque a molecada do Grupo Primário muitas vezes se aventurava descendo aqueles barrancos tão altos e conheciam-no palmo a palmo, e ali brincávamos muitas vezes de pique-esconde, polícia e bandido, etc. Era um lugar perigoso, de barrancos traiçoeiros, ocultando às vezes o ninho de cobras, mas as crianças desconhecem o perigo. Muitas vezes levei para casa o barro colorido daquele lugar (chamávamos de “tabatinga”). Era barro amarelo, barro rosado, negro e até mesmo azulado...
Não sei porque o Bosque era fechado. Nem sei porque nunca terminaram de formá-lo, pois faltavam bancos e mais caminhos pavimentados, que dessem a ele um ar de bosque de verdade.
Só sei que era um Bosque vazio, esquecido das pessoas.
Talvez, com seu Portão carrancudo e fechado, o Bosque procurasse guardar seu segredo... Mas que segredo? Talvez tentasse, ao ficar isolado, manter longe das pessoas o perigo do Buracão!
Hoje moro longe, muito longe daquele lugar...
Já não sei mais que fim teve o Bosque, se ainda existe ou não. Só sei que as coisas mudam. Até o nome das ruas mudam! E assim, se perde no tempo e na geografia aquilo que existiu no passado!
Mas o Bosque ainda me lembra uma fase feliz, a idade infantil, quando crianças em bandos de cinco ou seis, gostávamos de explorar terrenos, brincando, se aventurando, levando estilingues...
E será que igual na Cantiga, se este Bosque ainda existir, também guarda dentro de si algum Anjo?
Também não sei...
E se guarda, então para mim esse Anjo se chama Saudade, pois a lembrança do Bosque evoca saudades da Infância... Uma infância em que parte dela ficou no tempo, junto com o Bosque.
O meu Bosque, chamado Solidão...

Marcelo Lagoa de Almeida, 19 de Fevereiro de 2017